Robert Morin: reinventando o Quebec, 2016

Reinventando o cinema com os próprios meios

 

Meu primeiro contato com a obra de Robert Morin ocorreu na mostra Cinema Contemporâneo do Quebec, em 2015. Naquela ocasião, foram exibidos apenas dois de seus longas-metragens: Diário de um colaborador [Journal d’un cooperant, 2010] e 3 histórias indígenas [3 Histoires d’indiens, 2014]. Apesar de filmes aparentemente distintos, tanto em relação à fatura quanto à proposta – o primeiro é uma espécie de filme-diário documental de um personagem interpretado pelo próprio Morin e o segundo é uma ficção que parece documentar a vida de personagens reais –, eles dizem da originalidade de um cineasta cujo trabalho sempre se equilibra na linha tênue que separa ficção e documentário. O projeto de cinema de Morin não reside apenas em conjugar esses dois estilos de realizar filmes, algo que o cinema direto havia inaugurado no fim dos anos 50. Como lembra o ensaísta Jean-Louis Comolli, o desenvolvimento das técnicas de filmagem daquela época (câmeras em 16mm síncronas e leves, por exemplo) gerou uma nova relação entre o cinema e o vivido: não há mais um “mundo pré-fílmico” (reconstituído ou “verdadeiro”) diante do qual o cinema se colocaria para extrair um filme, há apenas o mundo-fílmico. Morin quer criar fricções neste mundo, retratando personagens e situações sobre as quais outros realizadores geralmente silenciam. Nesse sentido, a câmera de vídeo do cineasta irá se voltar para questões tais como: a marginalização de uma geração de indígenas no século xix, a miséria da guerra, a corrupção de ONGs na África, as relações ambíguas entre a polícia e o tráfico e problemas identitários de indivíduos que sofrem preconceitos das mais diversas ordens.

 

Em uma entrevista publicada neste catálogo, Morin, que passou pela pintura e pela fotografia, diz que a escolha definitiva pelo cinema se deu em Gus ainda está no Exército [Gus est encore dans l’Armée, codireção de Lorraine Dufour, 1980]. O curta experimental anuncia procedimentos que o cineasta passará a adotar ao longo de seus filmes: a presença do dispositivo cinematográfico figurado pela câmera de vídeo, reveladora da subjetividade do personagem através de imagens que teoricamente é ele quem está produzindo; a mistura de elementos autobiográficos e fictícios na construção da narrativa e a presença do corpo do cineasta (neste caso, apenas da voz). Desde o início, Morin entendeu que para levar a cabo seu projeto de cinema era preciso contar com o suporte de uma produtora e distribuidora de filmes independentes e em março 1977, ao lado de diversos roteiristas, cineastas e produtores, funda a Coop Vidéo de Montréal – centro de produção e distribuição de obras dos mais variados formatos e gêneros. Assim, a totalidade de seus curtas e a grande maioria dos longas, são realizados no seio da produtora que encoraja os colaboradores a fazer um cinema sem as amarras da produção comercial.

 

Os vinte primeiros anos de carreira de Morin são marcados pela presença da sua parceira mais constante, Lorraine Dufour. Salvo raras exceções, seus curtas contam com a codireção de Dufour e poderíamos caracterizá-los como retratos de personagens excêntricos. Acompanharemos, assim, o drama de um engolidor de facas aposentado, as angústias de um anão que almeja uma vida profissional normal ou o retorno de uma mulher que foi sequestrada pelos índios durante 24 anos. Essa mesma estranheza irá marcar os personagens dos seus longas, centrados em geral na vida de um indivíduo que sofre de uma inadequação à realidade que o cerca. Na mostra Robert Morin: Reinventando o Quebec o público terá a oportunidade de assistir à maioria maciça dos filmes deste premiado cineasta quebequense. Desde o uso da câmera subjetiva como ferramenta para sua criação ficcional nos inícios da Coop Vidéo de Montreal, até os audaciosos ensaios narrativos como Réquiem para um belo sem coração [Requiem pour un beau sans-cœur, 1992], Sim Senhor! Senhora… [Yes Sir! Madame…, 1994], Qualquer um morto, morto de dor [Quiconque meurt, meurt à douleur, 1998], Pequeno Pow! Pow! Natal [Petit Pow! Pow ! Noël, 2005] ou Papai à caça dos pássaros selvagens [Papa à la Chasse aux Lagopèdes, 2009], Morin se afirma como um cineasta que recusa quailquer convenção cinematográfica. Vale lembrar, que nenhum dos filmes desta mostra foi distribuído comercialmente no Brasil.

 

Este catálogo reúne textos de pesquisadores quebequenses de diferentes gerações: Gilles Marsolais, o mais importante pensador e crítico de cinema em atividade do Quebec, Michèle Garneau, professora de cinema na Universidade de Montreal e admiradora do cinema de Morin desde o início e Israël Côté-Fortin, jovem pesquisador que acaba de defender uma tese de doutorado relacionando o conceito de cinematografia nacional à Morin. Além disso, traduzimos uma conversa entre o cineasta e o documentarista Georges Privet que, pelo fato de partilhar da mesma ocupação, levanta questões que vão de encontro ao interesse do espectador. Por fim, para não deixar a recepção brasileira de fora, contamos com um artigo inédito da pesquisadora Lúcia Monteiro, escrito especialmente para esta ocasião. Este pequeno livro, que também possui uma filmografia completa da mostra, pretende servir como uma porta de entrada para a obra de um cineasta fascinante e que não faz concessões.

 

Maria Chiaretti