O cinema de Jerzy Skolimowski, 2017

O impulso de renovação trazido pelos assim chamados cinemas novos nos anos 1960 conjugava invenção formal, engajamento político e afirmação de um estilo particular. Ele se manifestou em toda parte, da Europa ocidental (França, Itália, Alemanha, Suíça) à América Latina (Brasil, Cuba). Não foi diferente na Europa do Leste, sobretudo na Tchecoslováquia e na Polônia, de cujo cinema novo Jerzy Skolimowski emergiu como o cineasta mais emblemático e original. Em razão da multiplicidade de seus talentos – de poeta, pintor, roteirista, boxeador, dramaturgo e ator – e da contínua transformação de seu cinema face às circunstâncias práticas e políticas, Skolimowski construiu uma filmografia cujo estilo é de difícil classificação. De modo geral, seus filmes se caracterizam pela vitalidade das encenações, amparadas no uso da improvisação, tanto dos atores quanto da mise-en-scène. O seu é sobretudo um cinema físico, movido pelas ações e gestos intempestivos dos personagens, situados em espaços insólitos e sublinhados por uma montagem muito inventiva. Anti-didáticos por excelência, seus filmes se situam no limiar entre a representação naturalista e a metafórica, derivando eventualmente para uma imagética surrealista.

 

Como os melhores cineastas de sua geração, Skolimowski esteve atento às rápidas transformações de seu tempo e à juventude que as promoveu. Em seus primeiros filmes, ele privilegiou personagens de jovens inconformados, obstinados e deslocados, que não se adaptam às formas, ritmos e regras de um mundo cada vez mais normatizado. O protagonista de sua tetralogia semi-autobiográfica, Andrezj Leszczyc (interpretado em três dos filmes pelo próprio diretor), encarna um desses jovens românticos à deriva. Acompanhamos seu embate com as convenções sociais e as hostis barreiras políticas, seja em relação aos valores das gerações precedentes, ao vazio gerado pelo consumismo, ou, mais diretamente, ao aparato militar repressor da Polônia comunista. Desfecho da tetralogia, Mãos ao Alto! (1967-81)  se configura como o filme mais abertamente político e experimental de toda a carreira do cineasta. Sua sátira ao stalinismo e ao conformismo polonês lhe custou a censura pelas autoridades do país e forçou o cineasta a um exílio de mais de duas décadas.

 

Já reconhecido pela crítica internacional da época, Skolimowski deu continuidade ao seu trabalho autoral na Europa ocidental, retratando com fértil distanciamento os conflitos e fenômenos da juventude da década de 1960. Podemos lembrar a presença do jazz e da nouvelle vague em A Partida (1967), do rock’n’roll em seu episódio de Diálogo 20-40-60  (1968), e da Swinging London em Ato Final  (1970). Mesmo no exílio, a conturbada situação política de seu país natal e a fraturada identidade de um polonês cosmopolita continuaram a ser temas centrais de sua obra – como na parábola realista A classe operária (1982) e no autobiográfico O sucesso é a melhor vingança (1984), obras-primas de sua maturidade. Neste par de filmes complementares, observamos o talento do cineasta tanto na experimentação das formas quanto no domínio de um estilo mais clássico. É o que vemos persistir em Quatro Noites com Anna (2008), primeiro filme realizado em sua Polônia natal desde os anos 1960, depois de dezessete anos sem filmar. Skolimowski também teve grande êxito artístico em filmes que retrabalham gêneros cinematográficos. Aparentemente rotineiros e impessoais, O Grito (1978), O Navio Farol (1985) e Correntes de Primavera (1989), para não falar dos mais recentes Essential Killing (2010) e 11 minutos (2015), continuam revelando a típica ousadia formal e narrativa do cineasta, o seu domínio dos códigos e a singularidade de seu olhar.

 

Maria Chiaretti, Patrícia Mourão e Theo Duarte